O melhor Brasil num único Grand Slam — e ainda é só o começo
Guto Miguel campeão, Fonseca nas quartas, Stefani nas semis. Roland Garros 2026 foi o maior resultado coletivo do tênis brasileiro em Paris.
Trinta anos cobrindo tênis me ensinaram uma coisa: resultados coletivos não aparecem por acidente. Roland Garros 2026 foi a prova disso.
Guto Miguel levantou o troféu juvenil em Paris. João Fonseca chegou às quartas do principal. Luisa Stefani foi à semifinal de duplas. Leonardo Storck e Victoria Barros, ambos nas semis juvenis. Cinco brasileiros em fases avançadas de um único Grand Slam, ao mesmo tempo.
Não me lembro de outro Roland Garros assim.
O que Guto Miguel representa
O título juvenil é mais do que um troféu para um menino de 17 anos. É um sinal de que a base do tênis brasileiro está funcionando. A CBT levou décadas para construir um sistema capaz de produzir atletas desse nível com regularidade — e agora estamos colhendo.
Guto não jogou o torneio mais fácil da história. Os juniores de Roland Garros reúnem os melhores do mundo nessa faixa etária. Ganhar ali, no saibro, com a pressão de representar um país com expectativa crescente, não é trivial.
Fonseca e a pergunta que todo mundo evita
João chegou às quartas do principal com 18 anos. Bom resultado? Sim. Suficiente para o que esperamos dele? Não tenho certeza.
Fonseca ainda perde quando a bola vai longe e o adversário não erra. O saque cresce, o forehand é violento, mas o jogo de resistência — o que vence sets no saibro — ainda está em construção. As quartas foram honestas com onde ele está agora.
O problema é que a narrativa em volta dele corre mais rápido do que o desenvolvimento dele. Isso é perigoso. Já vi essa história antes no tênis brasileiro.
O que vem a seguir
A transição para a grama começa agora. Wimbledon bate à porta.
Para Fonseca, a grama pode ser um alívio — jogos mais curtos, pontos mais diretos, saque valendo mais. Para Stefani, Wimbledon é uma oportunidade de se confirmar entre as melhores duplistas do mundo numa superfície onde ela já mostrou consistência.
O Brasil de 2026 não é mais aquele que vai a Paris torcer para não perder na primeira rodada. É um país que vai com expectativa de chaveamento, de semi, de título. Isso muda tudo — inclusive a cobrança.
E ainda bem.